Fatores de transferência

Fatores de Transferência - FT: O que são e como podem promover alterações na regulação (modulação) em diversas patologias


Introdução

O uso de órgãos de animais, ou parte deles, como remédios e medicamentos faz parte da cultura humana há milênios para as mais diversas finalidades. A etnofamacologia busca entender e, posteriormente, melhorar a forma como esta medicina centenária ou milenar atuava, reinterpretando seus usos sob a ótica da ciência moderna. Neste processo são descontextualizados os aspectos religiosos ritualísticos, focando apenas na farmacologia. Com base em um histórico de utilização, uma proposta para a aplicação e posterior experimentação é desenvolvida. Dentre os diversos órgãos, vamos nos ater ao baço.

O baço humano ou animal contém uma reserva natural de células sanguíneas. Percebeu-se que se este órgão fosse triturado e esta massa fosse dialisada contra uma membrana de até 12.000 daltons, era obtida uma solução que, se ingerida por pessoas com doenças relacionadas a infecções resistentes, tumores, dermatites, alergias respiratórias ou autoimunidade, notava-se uma melhora no estado sintomatológico. Este foi o ponto de partida para o aprimoramento no uso, nas técnicas de purificação e no entendimento dos mecanismos que podem estar envolvidos nas experiências clínicas observacionais.

Em 1954, o pesquisador Lawrence [1] descobriu que esta melhora (sintomas) estava relacionada ao que ele denominou de “Fator de Transferência” - (FT), ou seja, alguma(s) substância(s) pode(m) ser transferidas de um indivíduo saudável para um paciente com alguma enfermidade. Este pesquisador utilizou um dialisado de leucócitos humanos a priori. O mesmo autor em 1985 determinou como sendo o FT, um conjunto de polipeptídios com baixo peso molecular [1], a partir daí, os estudos tanto com aplicações experimentais e clínicas como os estudos para identificar qual substância (ou substâncias) estaria evolvida como sendo o FT aprofundaram-se [2,3].

O que são os FT?

Os FT são pequenas proteínas que "transferem" a habilidade de expressar a imunidade celular de um indivíduo imune para um indivíduo não-imune [2,4,5]. Duas substâncias foram identificadas a princípio como um FT: a Eplenopentina (SP-5, Arg-Lys-Glu-Val-Tyr) e a Timopoetina (TP-5, Arg-Lys-Asp-Val-Tyr), estes são peptídeos imunomoduladores que podem ser sintetizados. Há uma correlação entre as substâncias encontradas no baço e nos linfonodos. A substância nomeada de esplenina, tem diferença em relação a timopoetina que está na posição 34 (ácido aspártico no Timo e glutamina no Baço). TP e SP promovem as mesmas atividades biológicas [6,7].

Os FT são imunomoduladores, ou seja, substâncias que tem a habilidade de influenciar os componentes do Sistema Imunológico - SI. Entende-se como "influenciar o SI", corrigir ou acentuar terapeuticamente a resposta imunológica nas condições de imunodeficiências, infecções crônicas, autoimunidade e neoplasias.

A modulação da resposta do SI a nível farmacológico é dependente da dose e do modo de uso (periodicidade) [2], apresentando segurança para o paciente mesmo em doses elevadas [4].

A substância denominada esplenopentina com a seguinte sequencia de aminoácidos SP-5 (Arg-Lys-Glu-Val-Tyr) correspondem ao seguimento de 32-36 da cadeia peptídica do hormônio esplenina (TP-III). Entre as funções relatadas para esta substância esta a diferenciação dos linfócitos T e B [8].

A partir das descobertas promissoras destas substâncias, os testes preliminares in vivo e in vitro, foram levados adiante, assim como os estudos clínicos dentro das diversas possibilidades de aplicações. Tal como nos testes preliminares, o extrato de baço bruto demonstrou eficácia clínica nos casos de dermatite atópica. Em um dos relatos foram tratadas 16 crianças utilizando a fração TP-5, resultando na melhora clínica e, principalmente, reduzindo a produção de histamina e dos mediadores inflamatórios não relacionados a IgE [9,10,11].

Na maioria dos estudos clínicos ocorreram benefícios para os pacientes, mesmo os pacientes com neoplasia, onde o FT pouco atua diretamente, mas mostrou-se promissor em amenizar os efeitos colaterais das rádio e quimioterapias. Seu papel como adjuvante a todos as imunodeficiências diretas ou indiretas, assim como, a segurança no uso, são amplamente relatados na literatura [9,12,13,14]. Doses maiores têm efeitos inibidores, enquanto doses menores têm efeitos ativadores [14], tornando o uso sublingual uma ótima forma de administração e controle das dosagens.

As vantagens na utilização do FT como adjuvante

Entre as vantagens no uso dos fatores de transferência purificados ou brutos é a de que podem ser utilizados por via oral com a mesma eficácia comparado a via subcutânea [15,16].

O que denominamos genericamente como FT é um conjunto de vários peptídeos de baixo peso molecular (<12.000 daltons). As substâncias conhecidas presentes no extrato do baço bovino (atualmente, não se usa o extrato a partir de baço ou leucócitos humanos) são as esplenopentina, tetrapeptídeo de tuftsina, a tuftsina, o tuftsinal (L-Prolyl-L-arginina) e tuftsina (Thr-Ly-Pro-Arg) (composição do medicamento Imunotransferan® de produção brasileira). Fora do Brasil o FT é comercializado como um suplemento alimentar, sem que haja o controle adequado para garantir as concentrações e eficácia terapêutica.

Entre as substâncias presentes no FT uma atenção maior é dada, sobretudo, à tuftsina que é um tetrapeptídeo (Thr-Lis-Pro-Arg) produzido pela clivagem do domínio Fc da cadeia pesada da imunoglobulina G (ocorre no baço) [17,18], que apresenta em diversos estudos clínicos resultados na redução das infecções bacterianas em pacientes HIV positivos [19], aumento da fagocitose, mobilidade, quimiotaxia dos macrófagos e aumento da capacidade do macrófago apresentar antígenos aos linfócitos T [17,18,20,21,22,23].

Há uma relação direta entre a presença da tuftsina e a redução no risco de infecções por protozoários, bactérias e fungos [8,24,25].

Conclusão

Considerando as condições estressantes a que todas as populações do mundo estão vivenciando e que tais condições influenciam diretamente em nossa imunidade (saúde e qualidade de vida), e indiretamente nas questões de saúde pública e privada, além das derivações relacionadas. O desenvolvimento de medicamentos baseados em produtos com baixo risco e custo ao consumidor, podem marcar o início de uma nova medicina que altere a forma como lidamos com os medicamentos que tratam das patologias com as quais estamos constantemente expostos, alterando de um estado de tratamento focado, para uma terapêutica preventiva. O fator preponderante, principalmente, quando pensamos nas populações de países com grande contingente populacional e que não dispõem de recursos financeiros para acompanhar as constantes gerações de novos medicamentos, que tem alto custo final e pouco conhecimento sobre os efeitos colaterais devido ao pouco tempo de comercialização, assim como, suas interações medicamentosas. Portanto, a utilização de medicamentos baseados nos extratos de brutos ou purificados de baço bovino pode tornar-se uma saída viável e de baixo impacto financeiro nas populações de países sem condições de arcar com os custos de medicamentos atenuadores da patologia focal disponibilizados pelos grandes laboratórios farmacêuticos.

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